Category: Literatura


— Eu tenho que pegar o ônibus!
TRRRIIIMMM TRRRIIIMM TRRRIIIMMM
Mais um dia desses de olhar o mar lá embaixo. Tão
perto e tão longe. Emparedado. Embrulhado, mas não pra
mim. Eu sou o recheio de um ônibus lotado, que ainda
vou pegar. E aquele sonho. A boneca criança, a criança
boneca. Nem posso contar a ninguém, vão me tirar pra
pedófilo. Aí fudeu! Serei só eu? Esses sonhos. A
sincronia. 11:11. 20:02. 00:00. É mais um dia. Talvez o
cahorro volte. E já não sei se saberia viver com ele.
O cheiro, os latidos, a carência. Outro dia. Mais um
dia. Só pra ser enfático. Faltam forças até pra
desistir. Então tudo se repete. Como num sonho que
sempre volta. E você sabe disso, sabe de tudo, mas só
quando acorda. Antes é o mesmo medo de cair ou a mesma
habilidade de voar. Mas não esse. Que de tão banal é
aterrador. Lembro do livro em que o cara nõ sonhava em
cores. Ou não sonhava em imagens. Mas não esse. Aonde
ela ia. “Eu tenho que pegar esse ônibus!” Eu tinha. E o
despertador toca. Quantos despertadores tocam ao mesmo
tempo no mundo? Quantas pessoas perdem o ônibus?
Justamente o que não deveriam perder.  E a boneca de
porcelana da recepção. A menina. Não disseram que havia
uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. O
elevador e sua eternidade. Tudo está tão pronto pro
caos. Detalhes apenas. Detalhes tão pequenos. Dois
segundos a mais ou a menos. Não por acaso. Um iceberg
que acerta outro lá na Antártida. O vazamento de óleo
de freio. Por que tudo isso? Às vezes surge essa
clareza aterradora. Verborragia. Melhora até o
vocabulário de alguém tão médio como eu. Logorréia. Os
sintomas são claros. Eu não me preocupo não. Não me
preocupava. Mas veio esse estalo. Algo está mudando.
Voltando talvez. Mas mudança por si só nõ tem valor.
Depende de nós. De como tudo é amarrado. Parece que
virei um ecochato. Acho que nem tenho escolha. Talvez
nunca tivesse reparado na parede emparedando o mar. Os
turistas têm cartão de acesso. Todos miniaturizados na
faixa de areia que ocupa a garrafa. Essa parede de
vidro. A paisagem imutável. Casinha e coqueiros.
Talvez Jorge Amado e Dorival Caymmi lá no fundo. Redes
e água de côco. Mas só o turista é quem sabe. Eu sei do
meu ônibus. Eu tenho que pegar. E milhões de decibéis
estrondando ao mesmo tempo. Coincidência? Uma sinfonia
de acasos. Dessas perfeitas. Daquelas do Cage. People
+ Arts. A salvação do meu nível cultural furado. E! No
final é isso. Quando me levantar, o céu estará morto
e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo.
Há essa corda umbilical de látex e há papel de seda
amassado por toda a casa. Mas isso ainda virá. Todo
esse sentimento do mundo. Sinto-me disperso, anterior
a fronteiras, humildimente vos peço que me perdoeis.
Havia um Rei. Tenho certeza que não o matei. Mas serei
eu o sacrifício. E não será a menor pena. Haverá um
menino agarrado numa barra de saia. E o sol nesse dia
chegará atrasado. Como quando se tem essa hora a menos.
Os galos não tecerão nada. Será greve, ainda que seja
demodê. E a guilhotina eletrônica nos salvará a todos.
Da ração ao filet. Eu sei. É só um percurso. Essa
manhã escura. O escritório. As metas. Essas cosias
normais. O idiota chacoalhando na minha frente e me
dizendo como ser feliz.  É fácil. Viseira, cabressto e
ração. Produtividade. O cão partiu, faz sentido… E a
era é a das ideias. As minhas, as suas. Todas pra
eles. Esse conceito ridículo que me invento pra não me
sentir culpado pela minha própria miséria. Já não
tenho como fazê-lo. Planejei bem meu tempo livre.
Desejava era o retorno. Não vou tão longe: daria
todas as paisagens do mundo pela da minha infância.
Elos tão fracos como a perplexidade de um molotov. No
sonho não havia mais Os Quatro Cavaleiros. E até
sentimos falta do Faraó. Decididamente, odeio cada vez
menos meus antigos amos. É como atravessar aquela
ponte que caiu. De verdadeiro e bom só resta o lado de
lá. Eu tenho que morrer. Eu tenho que acordar. E já
faço tudo isso calado. Não porque me obrigam. É só que
acordo cansado. Estou semrpe com pressa. Desejando
aquela hora que vai sobrar. Para contemplar sessenta
voltas daquele ponteiro. E tudo por uns jaules a menos
pra matar a sede e o desejo. É tudo tão claro. Lembra
quando você se mudou pra cá e não sabia como se ia ou
como se vinha. E você nunca, nunca mais vai sentir
isso. E você percebe que perdeu algo. Não sabe o quê.
Mas sente falta. Algo lhe foi tirado. Algo que você
não pode recuperar. Você é maneira de aproximação e
identificação. Generalização. Pra ganhar confiança.
Nunca é você. Ou eu. Sou eu. Como confiar nela, na
cidade, na sociedade? Como ser saciado sem ser
desintegrado? Para quem ela foi feita? Só os ociosos,
os parasitas, os peritos em ignonímia, os pequenos e
grandes canalhas tiram proveito dos bens que ela
ostenta, da opulência da qual se orgulha: delícias e
profusões superficiais. É como aquela pedra. Uma vez
que você a encontrou (ou não), seja bem vindo à
modernidade. Eu preciso dormir. Eu preciso acordar. E
farei tudo isso. Meu nome é tão pouco importante. Hoje
é só mais um dia. Mas eu sei que dormi, por muito tempo,
e acordei. Vou crer que sou só eu. E vou aproveitar
esses cinco mintos a mais na cama. É que algo
aconteceu e eu não serei mais o mesmo. Eu preciso
pegar o ônibus e seguir com ela. É preciso tanta coisa.
É preciso viver com os homens, é preciso não
assassiná-los, é preciso ter mãos pálidas e anunciar o
FIM DO MUNDO.
—————
Colaboraram: John Verb, Carlos Drummond de Andrade e
Cioran.

Nelsin GG

para André Ribeiro

Foi tudo muito rápido. Ela estava por cima. O marido veio por trás. O barraco todo tremia. A pancada mal foi percebida. O agressor fugiu assustado. Um leve fio de sangue corria da nuca da negra cujo corpo desabou sobre Nelson, o Nelsin GG. Não deu pra ele, no auge dos seus 47,603 Kg. E até hoje quem se lembra ri feliz, completando que Nelsin GG morreu como todos gostaríamos de morrer: fazendo o que amava.

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